sábado, 20 de Junho de 2009

FALSAS VÍTIMAS & FALSOS PRIVELIGIADOS

Anos de progresso, e de evolução científica não foram suficientes para pôr em causa a categorização como forma de identificação, tanto de coisas como de indivíduos. Esta lógica de categorização, ou classificação está tão presente que se pode mesmo questionar se há alternativa. Apesar disso, a sua capacidade de representação da realidade é sempre questionável, sendo certo que em alguns casos, tais classificações são no mínimo enganadoras.
Para muitos, a descrição da forma do planeta Terra como esférica, trata-se da sua correcta representação, para outros trata-se dum elipsóide, e para os mais eruditos, trata-se dum geóide. No entanto, a verdade inquestionável, é a de que a Terra tem a forma da Terra. Sendo verdade, o que há de errado então com a última definição para que se prefiram as anteriores? Porque não dizemos simplesmente que as coisas são o que são e perdemos tempo com classificações que estão mais ou menos longe da realidade? Talvez porque, apesar de um carro ser realmente um carro, esta resposta parte do princípio de que já se sabe o que é um carro, pois de outra forma a dúvida manter-se-ia.
Normalmente, quando se tem uma dúvida relativamente ao significado duma palavra recorre-se ao dicionário. No entanto, é ilusório pensar-se que o dicionário lhe diz o significado da palavra, o que o dicionário faz, é estabelecer ligações entre a palavra cujo significado procura saber com outras que já sabe. Ao bom estilo duma criptoanálise, mapeando as relações conhecidas dum qualquer dicionário, seria possível de forma sofisticada, saber as relações desconhecidas doutro qualquer dicionário, ou seja, a construção dum dicionário tradutor. Claro que tal não seria uma tarefa linear, bastando considerar as diferenças culturais para se perceber isso.
Se a complexidade anteriormente descrita nos dificulta a tarefa de tradução, ajudam-nos no entanto a concluir que um simples dicionário encerra em si uma ideologia. Os acordos ortográficos são exemplo disso, onde as decisões da inclusão ou exclusão de certas palavras, e por vezes o seu significado, desencadeiam verdadeiros debates políticos. Extrapolando esta ideia, podemos mesmo dizer que cada pessoa vive com o seu próprio dicionário, pois se assim não fosse, campanhas de leitura como o Plano Nacional de Leitura seriam um perfeito disparate. Sabemos que uma pessoa com maior nível de escolaridade, possui um vocabulário maior, mas o que faz duma pessoa letrada ou não, define-se como sendo a utilização do conhecimento que possui, ou seja, no que concerne às palavras, saber a sua inter-relação com outras palavras e incorporar isso numa rede de significados.
Esta rede de significados é o suporte intelectual dum indivíduo, pode não só revelar a sua concepção do que o envolve como também as experiências que viveu. A simples palavra glória, pode ser sentida como uma espécie de conquista militar sofrida, ou em contrapartida, associada aos doces duma tia com o mesmo nome!
Por exemplo, quando se pensa em política pensa-se em esquerda e direita, sendo no entanto, estas mesmas duas palavras controversas, já que para uns A é de esquerda, para outros A é de direita. Por razões de simplicidade vamos considerar apenas diferenças, ou seja, X é mais de direita do que Z.
Por detrás do significado das palavras existem interesses, um exemplo disso é a palavra competitividade. Se tiver com alguma atenção, reparará que esta palavra tende a dissipar-se à medida que um discurso se torna de esquerda. Assim, tal como com outras palavras, poder-se-ia fazer um retrato da respectiva rede de significados de uma qualquer entidade. Suponha-mos que temos dois indivíduos, A e B, e para cada um deles temos a seguinte rede de significados para a palavra competitividade:

Indivíduo A:
  • Empreendedorismo;
  • Riqueza;
  • Produtividade;
  • Competência;
  • Economia.
Indivíduo B:
  • Agressividade;
  • Pobreza;
  • Exploração;
  • Neoliberalismo;
  • Mercado.
Relativamente a estes dois indivíduos, a resposta à pergunta quem está à esquerda de quem, torna-se mais fácil à medida que mais palavras são associadas por esses mesmos indivíduos. Não é por acaso, que os dicionários procuram normalmente traduções “neutras”, sendo neste caso algo do género:
“Competitividade - Qualidade do que é competitivo.”
No fundo é a resposta típica da de um carro é um carro, não deixa de ser verdadeira, mas implica saber o que é um carro!
Mas afinal, qual é o problema do significados não serem uniformes?
O primeiro problema, é o de nem todos se aperceberem disso, achando que o que se escreve vale por si e se percebe por si. O segundo, é o da não uniformidade dos significados ter como causa tratarem-se estes dum campo de batalha.
Se já viu os filmes de Dirty Harry, ou de Mad Max, notou que alguns destes estão comprometidos em descredibilizar a ideia de inimputabilidade das personagens criminosas. Uma das formas que é recorrentemente usada, é a de dar a entender que os crimes não são consequência duma qualquer doença mental, advogada muitas vezes por personagens puramente burocráticas.


Cena final do filme Mad Max

Se o significado das palavras e a sua inter-relação podem parecer uma questão de pormenor, basta estar atento às discussões acesas sobre se A é ou não B para perceber que o não são. A palavra doença tem sido uma das mais debatidas ao longo dos últimos anos, e isso não é por acaso. Por exemplo, a aceitação de uma doença como tal, é a condição necessária para que haja comparticipação do estado no seu tratamento. Os soldados vindos de cenários de guerra, para poderem obter apoios oficiais depararam-se com a necessidade de o justificar. Simples afirmações de que se sentiam perturbados não foram suficientes, tendo sido necessário o catálogo de doença para que a necessidade de tais apoios fosse reconhecida. Desta forma, o chamado Stress Pós traumático é mais uma necessidade do que um facto.
Numa sociedade onde os factos se fazem de argumentos, a expressão, contra factos não há argumentos não poderia estar mais errada. É comum a confusão entre conhecimento e confiança da mesma forma que entre verdade e sobrevivência. Esta confusão tem suporte na suposição da liberdade individual. Existe a convicção universal de que os pensamentos, tal como as acções são escolhas individuais, são fruto de outra coisa que não a necessidade de sobrevivência. Este sentimento, ou melhor, esta necessidade de sobrevivência está presente no indivíduo, na sociedade, nas empresas e nas próprias ideologias. A verdade, ou os factos, não carecem de tal necessidade, na realidade pode-se mesmo dizer que a verdade não é uma sobrevivente, bastando recordar o investimento necessário para se manterem os conhecimentos mais básicos, e o eterno apagar de factos pelo tempo. O Homem, ao contrário dos factos ou da verdade, não possui esta liberdade, e assim sendo, ele é uma espécie de Robocop com um firmware que o impede de abraçar ideias que vão contra as suas cláusulas, quer sejam verdadeiras ou não.
O indivíduo é assim uma instanciação tanto de clausulados biológicos como sociais, clausulados esses que apesar de comuns, se materializam duma forma individual. Apesar dos indivíduos terem aparentemente a capacidade de moldarem a lógica que os interliga, esta capacidade é ilusória, visto em última análise, ser o indivíduo a consequência e não a causa da lógica que o define.
Voltando ao mundo das palavras e dos seus significados, é habitual sentir-se uma falta de congruência, em forma de “por um lado sim, por outro não”. Quando alguém diz que A é B mas A não é C, conclui-se que B não pode ser C. No entanto, sendo a cultura uma arena de interesses, os seus territórios nem sempre se delimitam de forma coerente.
Existem características que tornam um indivíduo mais ou menos apto a atingir os objectivos que lhe estão associados. Sendo o Homem um ser de características intrinsecamente sociais, não é de se estranhar ver este reagir mal à sua segregação. Sendo este receio tão comum, podemos mesmo considerá-lo como um instinto, o instinto da inclusão.
Como exemplo de características que promovem a exclusão, consideremos o Síndrome de Down. Este problema, que afecta profundamente o seu seio familiar, e encontra na sociedade uma enorme discriminação. Sendo assim, quem de alguma forma é vítima dessa discriminação, opta por a minimizar atacando as causas da mesma. De forma previsível, as doenças que de facto se caracterizam como incuráveis, nunca gozaram de grandes privilégios no meio em que se inserem, e ao contrário do caso dos ex-combatentes referidos acima, o termo doença traz mais prejuízos que benefícios.
Como resultado, o Síndrome de Down não é uma doença, como se constata no site da Down's Syndrome Association. No entanto, apesar do Síndrome de Down não ser uma doença continua a ser um síndrome, estando esta última designação associada à de doença em qualquer dicionário actual. Estas incongruências não provam o que é ou deixa de ser, são isso sim, reveladoras dum feudalismo linguístico.



Neste feudalismo, as ideias procuram adeptos, e assim, a simples idade da mãe no momento do parto, associada medicamente com anomalias congénitas, poderia muito bem enquadrar-se numa vantagem evolutiva, conceito muito popular nos dias de hoje. Como argumento de viragem, bastaria notar que essa idade está positivamente correlacionada com o número de filhos já tidos. Assim, após alguma meditação nesta curiosidade, poder-se-ia argumentar que a própria evolução, revela haver alguma vantagem deste síndrome no seio de famílias grandes. Qual? É irrelevante...!
Neste feudalismo linguístico não existem inocentes, sendo contudo, os exemplos anteriores os que mais se lhe assemelham. As empresas e outros organismos, tal como as pessoas, não são de igual forma imunes a esta necessidade.
Actualmente, não existe assunto tão assustador para certas empresas como o aquecimento global. Se para o cidadão comum este assusta pela ausência de medidas, para certas empresas este assusta pela sua exigência.
As empresas possuem os seus próprios instintos de sobrevivência, dos quais, a obtenção de lucro como fonte energética assume um papel primordial. O que motivou as negações da industria do tabaco, não encontra raízes num qualquer mal superior nem mesmo na ignorância. A sua origem, iguala-se à existente em qualquer outro organismo sedento de sobrevivência, sendo por isso, uma constante passível de ser controlada mas nunca erradicada.
Desta forma, as organizações associadas à exploração de energias fósseis, desencadearam já o seu mecanismo de auto defesa contra a ideia do aquecimento global. Num documentário intitulado The Denial Machine da CBC, constata-se como a simples redefinição das palavras, podem alterar o sentimento social relativamente aos temas alvo. Frank Luntz, presente neste documentário, desenvolve de forma muito inteligente, um documento que se viria a tornar a base semântica de George W. Bush relativamente ao tema do aquecimento global. Ele apercebe-se, que os significados associados às palavras são em grande medida construções políticas. Assim, detectando as frases cujos significados se afastassem mais, dos já dominados pelo consenso existente, consegue-se corroer a sua base factual.



Fazer parte duma sociedade pode ser uma bênção ou uma maldição, e isto aplica-se a todas elas. É uma bênção quando se tira o partido mais do que justo dela, é uma maldição, quando é apenas ela a tirar partido, ou seja, como contribuinte (em sentido lato)(1), é o retorno o fiel entre uma ou outra coisa.
Sendo a cultura uma forma de expansão de ideias, esta é um dos principais instrumentos de definição de poder. Qualquer ideia que se queira expansiva, tem de ter um nível considerável de promessa. O modus operandi dum engodo, mede-se pela relação entre a promessa promovida e a da ideia em si. Neste sentido, o engodo pretende fazer confundir conhecimento com confiança, a confiança que dará lugar à ameaça como medida do seu sucesso.
É verdade que as coisas costuma ser um pouco mais complicadas, visto existirem interesses de múltiplas partes cuja permanência se consegue de forma mais subtil, sendo estes raramente independentes. Assim, existem aqueles que acabam por adquirir o estatuto de autoridade, em que, apesar desta não estar necessariamente sustentada por factos ou relações de casualidade, acaba por se tornar na base do senso comum.
As sociedades mudam, e o Homem moderno é o que se entende por moderno. Neste sentido, são muitos os privilégios que se lhe associam. A modernidade trás consigo a promessa da qualidade de vida, da solução de problemas, e o sentimento de dependência associado ao de direito. A sociedade moderna é a sociedade de direito, como se ouve muitas vezes, o direito em si mesmo, o direito à justiça, ou a justiça como o direito à modernidade. Todos estes termos, sendo adjectivos, carecem de significado, significados esses que não têm necessariamente de seguir uma lógica de verdade, muito menos quando esse direito é o que mais serve.
A promessa duma certa modernidade, reside na solução dos problemas que se associam à natureza humana, como se a natureza precisasse do humano para o ser. Na lógica da natureza humana, as patologias tornam-se patológicas, os efeitos transformam-se em causas, e o Homem, a base de trabalho na sua resolução. As lógicas querem-se dominantes, sendo que nesta, a infância, ela própria, acaba por ser uma patologia por força do que passou a ser causa. Esta promessa não requer cura, mas esperança no que se tornou facto consumado.




Notas:
1 - Bens e Contratos - http://librorum-prohibitorum.blogspot.com/2008/03/bens-e-contratos.html

sábado, 14 de Março de 2009

A Unidade do Significado da Vida

O significado da Vida sempre foi uma questão muito importante para um certo tipo de corrente filosófica, chamada de Existencialismo. Esta corrente filosófica tem a triste particularidade de ainda hoje ser tida em grande conta. Eu não sou opositor a um certo questionamento, o problema com o existencialismo não está aí, está isso sim no facto de estar fundamentalmente errada. O que quero eu dizer com fundamentalmente?

Muitas da ideias que se tem sobre algo assentam na sua capacidade reducionista, aliás, esta é a base fundamental de qualquer filosofia ou ideia, e é aí que reside a sua verdadeira utilidade. Por exemplo, na física houve uma forma de reducionismo verdadeiramente revolucionária, o átomo de Boltzman e a sua teoria atómica. Esta teoria continha em si um conceito muito importante para a altura, o de que o mundo físico é governado de baixo para cima e não o contrário, de que não há um ser ou entidade superior que controla o que se passa, mas quanto muito, uma série de lógicas que se evidenciam no átomo e se propagam até um nível macroscópico. No entanto, ao contrário duma qualquer teoria de pé descalço, a unidade átomo não se transformou num dogma inalterável! posteriormente surgiram os electrões, os protões e neutrões, e poderia dizer, acabando no modelo de Bhor, poderia, se fosse uma filosofia de pé descalço.

Continuando, podemos ver na biologia, que a unidade é o gene, mas ao contrário do que se pensa, e ao contrário de outras unidades, como sejam o cromossoma, o gene não é algo definido e estabelecido de forma rígida, mas subjectiva, como algo que define uma característica ou um traço humano, inviabilizando de certa forma o gene como unidade, podendo mais correctamente dizer-se sequência genética. Desta forma, e ao contrário duma filosofia de pé descalço, não há uma espécie de fundamentalismo unitário.

Mas vamos às perguntas...
  • Porque terá a vida de ter um significado?
  • Porquê um significado e não outra coisa qualquer?
  • Porque haveria de ser a vida a base de qualquer significado?
O existencialismo tem de ser tratado como realmente é, uma charada, e a que agora me ocorre é aquela do ovo e da galinha. O que nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Muito ao jeito do "porque existimos?".

Não seria muito complicado para nós desenvolvermos uma filosofia à volta do ovo e da galinha, poderia-mos até chamar-lhe o ciclo divino ou algo mais pomposo para dar um certo romantismo. Dessa forma, o ciclo divino passaria a ser a nossa unidade.

Claramente não se trata dum ciclo divino! Do que se trata afinal?

Antes de mais, não há a necessidade de se provar o que algo é para se concluir do que não é, pode-se chegar lá por absurdo. Apesar disso, poderia-se simplesmente dizer que sendo a galinha uma espécie descendente de outras que igualmente recorriam ao ovo para se reproduzir, conclui-se que o ovo "nasceu primeiro". Claro que dependendo da resposta que se queira podem-se ter respostas mais ou menos elaboradas e complexas.

O verdadeiro absurdismo do existencialismo vai para além do significado da vida, este na verdade assenta na sua unidade, a existência. É preciso antes de mais notar o seguinte:
  • Nem toda a vida recorre à consciência da sua existência (vírus, fungos, etc...);
  • A consciência da existência não foge às regras que regem outras características da vida;
  • A existência propriamente dita, só por si não se restringe à vida.
Compreende-se que para qualquer filósofo possa ser complicado fazer considerações sobre o seu sentimento de existência, apesar de o fazer relativamente às suas capacidades cognitivas como seja o caso de Kant. De facto, tal sentimento tem-se consolidado numa unidade sagrada, apesar de haver sempre quem o conteste como seja o caso de António Damásio.

No entanto, tal como o nosso ciclo divino descrito anteriormente, o sentimento de existência pode ser desmistificado de forma engenhosa. Vamos supor duas hipóteses:
  1. A existência é do domínio espiritual, é neste que ela reside indo para além do corpo;
  2. Toda a característica transportada de forma não física difere das características que o são;
Se for criacionista, para si haverá apenas um transporte, o espiritual, e dessa forma, a não diferença das características transportadas não se tornam num problema. No entanto, não faltam provas que não tenham já tornado o criacionismo numa mera relíquia histórica, não sendo além disso o âmbito deste post.

Vamos partir do princípio de que não é um fundamentalista religioso, e que de alguma forma concebe termos como hereditariedade e população. Por exemplo:
  • Porque razão tem 5 dedos em cada mão(1)?
  • Porque razão teriam os seus antepassados estas características?
  • Porque razão na população em que se insere é dominante todos terem também 5 dedos em cada mão?
Porque de alguma forma, a informação que sustenta esses mesmos 5 dedos, foi herdada por si sendo igualmente tal mecanismo partilhado pelos que estão à sua volta (população geral).

Se aceitar o que foi anteriormente dito considere agora os sentimentos, dor, frio, calor, tristeza, alegria, melancolia, etc... Todos estes sentimento, independentemente da forma como se possam categorizar são resultado dum mecanismo igual de transporte ao dos 5 dedos.

Agora pense no seguinte:

Se considerar a existência como um sentimento semelhante aos anteriormente descritos, ele próprio partilha exactamente as mesmas características, hereditariedade e partilha populacional, não só na sua consciência como na forma semelhante como se exprime. Assim sendo o seu transporte terá de ser igualmente físico, tornando-se absurda a ideia espiritual.

Agora repare, um sentimento não é uma decisão, embora tal lhe pareça semelhante, a liberdade da sua existência torna-se assim ilusória, visto que esta existe apenas para que siga as baias traçadas pela lógica da própria natureza.

A liberdade reside assim na dimenção do poder que se exerce sobre essa mesma natureza, quer moralmente quer tecnologicamente, sendo a última preferível à primeira. A liberdade nada mais é do que a corrupção da própria natureza.


Cena do filme Meaning of Life.

(1) - Sem considerar qualquer excepção.

domingo, 28 de Setembro de 2008

Boas e más acções


Abraham Sacrificing Isaac por Laurent de La Hyre, 1650

Normalmente, classificamos uma acção como boa ou má de acordo com o indivíduo que as exerce. Assim, quando nos deparamos com alguém que faz uma boa acção, dizemos tratar-se dum bom exemplo, um exemplo a seguir. Pelo contrário, quando nos deparamos com uma má acção, tendemos e repugná-la e a considerar o indivíduo originário como alguém desajustado, ou seja, um mau exemplo.
Sempre considerei mais interessante e importante o que se desajusta do que o que se ajusta, pois com o primeiro podemos inferir muito mais sobre o que suporta essas mesmas acções. Mas o que há de realmente significativo numa má acção, não são as suas consequências, mas sim, as suas causas, e até que ponto estas más acções, não são mais do que o preço a pagar por um qualquer modelo ideológico que se pretende suportar, sendo desta forma uma espécie de sacrifício.
Antes de pensarmos em modelos ideológicos, que são produtos civilizacionais, pensemos em estratégias comportamentais, que vão para além dos primeiros. Numa óptica de estratégia comum, uma acção só pode ser considerada de má, caso a estratégia que lhe deu origem, representar uma população adoptante numa situação desfavorável face a outra população seguidora de diferente estratégia.
Neste sentido, e apesar da gravidade dos actos dum individuo, estes só serão desvantajosos ou verdadeiramente puníveis, caso a população seguidora da estratégia comum que lhe deu origem, considere esses mesmo actos suficientemente caros ao ponto de se sobreporem aos benefícios do mantimento dessa mesma estratégia. Por esta ideia ser de difícil aceitação, em vez de estratégias, abordaremos antes as ideologias, que são de compreensão mais aceitável.
Uma ideologia não é mais que uma ideia da realidade. Mais ou menos elaboradas, têm por objectivo transformarem-se em standards comportamentais, e nesses sentido, são o pilar de qualquer civilização, pois não são uma consequência duma estratégia natural, mas sim, um artifício humano na tentativa de contornar os prejuízos da lógica natural.
Consideremos portanto uma ideologia como uma modelo da realidade. Como se sabe, todos os modelos são uma simplificação, desta forma contêm em si um erro, sendo este majorado em função da complexidade do modelo. Este erro pode e dá origem a um resíduo ideológico, o qual mede a justeza dessa ideologia. Assim, mais uma vez, as ideologias só podem ser consideradas boas ou más, comparativamente com a capacidade de representação de outras ideologias, e essa comparação pode-se basear no seu resíduo ideológico.
Consideremos por exemplo a regressão múltipla de acordo com a seguinte fórmula:



Nela temos y_i como sendo a realidade que se quer explicar, igual ao somatório (sigma) como sendo o modelo ou ideologia explicativa, mais o erro (épsilon) do modelo explicativo. Este modelo linear, ao prever limitações explicativas, é muitas vezes usado na explicação de dados com base noutros, não se rejeitando tal explicação sempre que certos critérios sejam observados.
Se se estiver a questionar, se poderá haver uma ideologia tal que seja completa, a resposta é não, pois se por definição (incompletude de Gödel) não pode haver uma lógica completa, por inerência, não o poderá, uma ideologia completa. No entanto, tal não significa que a ideologia deixa de ter a sua utilidade, de facto, é ela que destaca a humanidade da lógica natural.
Existe verdadeiramente uma enorme valor económico associado a uma ideologia. Todas elas possuem os seus próprios corpos evangelistas, na procura de fazer da sua ideologia o verdadeiro standard. Este corpo evangelista é o principal dependente da saúde da ideologia que suporta, sendo qualquer ataque a ela uma verdadeira ameaça ao seu status quo.
Certos colapsos económicos são-no não tanto pela realidade económica e concreta das suas finanças, mas mais pelas consequências ideológicas que dai advêm. Pode ter consequências muito maiores a queda duma ideia ou concepção da realidade do que a simples falência dum grande número de empresas ou qualquer outro colapso financeiro. Pois é a primeira que leva a uma verdadeira mudança de poderes e não a segunda. Trata-se da constatação da limitação duma ideologia, e não das suas concretas dificuldades práticas, que lavam à sua morte como conceito útil. Neste sentido, as chamadas más acções, superam em custos as vantagens da manutenção da ideologia que as gera como resíduo ideológico.
Num sentido mais lato, pode-se dividir o mercado como aberto e fechado (negro), onde o primeiro é do domínio público e o segundo do domínio privado. A saúde duma economia pode muito bem ser medida como sendo o rácio entre estes dois mercados. Quanto maior for o mercado fechado face ao aberto, menor será a população satisfeita pelo último. Assim, fenómenos naturais como o rico fica mais rico, fazer-se-ão sentir com mais intensidade num mercado dominantemente fechado, resultante da possível simplicidade do modelo ideológico.

terça-feira, 16 de Setembro de 2008

AIG dispõe de um dia para angariar 80 mil milhões de dólares e evitar a falência

A economia americana está de rastos! Mas ainda há quem veja tudo isto como um mero fenómeno conjectural, algo que se espera vir a ser resolvido por si a seu tempo. O grande problema, reside no facto da situação actual representar o colapso duma ideia económica. A ideia económica suportada por homens como Greenspan, que apostaram e suportaram a desregulação da economia, desregulação posta em prática na Rússia de Iéltsin e posteriormente no Iraque pós Saddam. A ideia de que uma civilização pode florescer do puro oportunismo dum bom negócio, é um fracasso à vista.
Se se for sério acerca da economia, não se podem suportar ideias miraculosas de criação de riqueza. A riqueza quando abstraída das suas fontes, e vista duma perspectiva puramente burocrática, leva ao ciclo vicioso da não sustentabilidade, constatada e reforçada pelos presentes acontecimentos financeiros.
Para além da Guerra do Iraque, que contribuiu fortemente para um desvio da riqueza pública americana, os instrumentos económicos no mantimento da estabilidade duma economia, como sejam fundos de investimento, seguros, empréstimos, reservas monetárias entre outros, passaram a ser eles próprios instrumentos ao serviço duma economia de mercado, regulada exclusivamente pelas mais elementares regras da oferta e da procura.
A verdadeira preocupação não reside nas falências em si mesmo, mas no facto de estas serem o resultado duma realidade acumulada ao longo de anos, anos de uma ideia que teve o seu grande início com o economista e prémio Nobel Milton Friedman. Estas ideias começaram por corromper grande parte das economias externas dos países do terceiro mundo, acabando na história recente, por corroer as economias dos do primeiro. Assim, as convulsões políticas vividas nesses países de experiência piloto, não foram mais do que um prelúdio do que pode muito bem acontecer nos países que as difundiram. Numa economia mundial cada vez mais interligada, e onde a ignorância felizmente já não abunda, esses países inicialmente mais atrasados, perceberam que as suas economias não se podem sustentar em iluminismos hipócritas, mas sim, na real capacidade económica do país e na sua sustentabilidade.
Na economia mundial, que nunca esteve tão interligada, não existem acontecimentos isolados, e desta forma, o efeito dominó que tanto se teme poderá bem ser uma realidade. Resta saber, quando irá a população americana acordar do seu delírio económico.